quinta-feira, 24 de março de 2011

O anjo de Tiago

O relógio marcava dez para as cinco da manhã, ele não consegue mais dormir, a cama parece que quer se ver livre dele.
- Por quê? - ele pergunta para o objeto - por que eu não consigo dormir?
Suas noites já não são as mesmas de outrora, agora ele se deita depois da virada do relógio e acorda antes da alvorada. Quando se recosta em seu travesseiro, os pensamentos revoam, de lá pra cá e de cá pra lá. No meio da madrugada é sempre um susto. Acorda temendo. Não tem certeza do que teme, mas o medo o tira do reconforto do sono.
Finalmente a hora de levantar. Já não aguenta mais rolar na cama, ela alfineta sua retaguarda. Mesa posta desde a noite passada, completa com as coisas da geladeira e o desjejum é digno de um rei.
Olha pra tudo aquilo e serve-se um café preto, frio, sem açúcar, sem amor. Um só gole já o basta. O resto conhece o aço da pia.
Essa é apenas mais uma manhã cinzenta de sua vida, apesar de ser um lindo dia de céu azul de vento gélido que se transformará em uma manhã quente digna de um refrescante banho de rio. É sábado, ele pode ir a uma encosta se banhar. Mas ele gostaria disso?
Será que algum amigo gostaria de o acompanhar? Procura pelo telefone móvel, está no quarto, ao lado da foto que fora tirada quando tinha 16 anos. Do lado de um borrão de café que enfeita o bidê.
Olha para o celular esperando que ele toque. Ele nunca toca. Nem mesmo as operadoras lembram-se dele. Ele está sozinho. O telefone olha pra ele com pena. Percorre a agenda, até a metade da sua extensa lista, que fora aumentando no decorrer dos anos, Tiago não encontra uma única opção para uma conversa. Também não gostaria de incomodar as pessoas que não sofriam como ele da maldita bênção de não ter sono. Resolve esperar o tempo passar. Como? Já ficou muito tempo esperando o sol raiar, não seria capaz de esperar o tempo passar mais ainda!
Resolve seus problemas: uma ideia miraculosa!
Agora munido de um Dostoiévski, uma cuia com erva mate e uma garrafa térmica ele monta na sua motocicleta e ruma ao interior do município.
Sua mochila que o acompanha desde os tempos escolares está quase vazia, mas uma camisa de flanela ainda completa seu espaço interno. Um broche do Nirvana revela seu gosto musical ao refletir um raio de sol, que agora é um pouco mais intenso.
Mais de uma hora depois ele chega a um lugar onde o trânsito já não é um incômodo. Ruas completamente desertas, nem mesmo uma poeira se faz presente. A chuva de ontem ajudou a fazer com que a estrada de chão batido da localidade parecesse ainda mais deserta. No caminho cruzara por aldeões, alguns o cumprimentaram, outros mostraram indiferença.
Agora sim está pronto para começar o último capítulo do livro. Não terminara antes o maravilhoso romance pois precisaria de muito tempo, não que fosse grande o capítulo, mas Tiago gostaria de muito tempo para mastigar e ruminar os sentimentos que seu autor preferido despertava.
Serviu-se de um chimarrão. Leu. Outro chimarrão...
Em algumas horas ele estava deitado sobre sua flanela. O sol já esquentava mais do que ele merecia, o calor o afastava da consciência. O jovem queria dormir de novo, dormir pra sempre. Aquele sentimento de raiva e de paz por Raskholnikóv ter se entregue o deixava mais corrompido ainda. Tinha fé que o estudante russo conseguiria se manter livre de sua perversa mente, mas sabia também que aquele gesto de se entregar fora o mais sensato, o que mais breve lhe traria paz.
O horário do almoço há muito já passou, a erva a muito esfriou e a água já não é presente. Sua pele não chegou a se queimar, mas um cansaço já o perseguia. A noite já se aproximava e ele passara o dia inteiro assim. Deitado olhando as nuvens tomar formas e lembrá-lo de cenas do livro.
A noite chega e ele desperta de sua mente, de seu limbo. Não dormira, não descansara, mas despertou.
Em um salto pôs-se de pé. Precisava ir logo! O mais rápido possível! Aquele não era um lugar amigável pra ele em um sábado de noite. Logo chegariam casais de namorados utilizarem o alto da colina e a vista maravilhosa da cidade para namorara. Ele odiava pensar nisso. Namorados. Por que o perseguiam?
Montou na motocicleta e foi. Morro abaixo muito mais rápido do que deveria. A segurança não era uma preocupação para o motoqueiro. Não tinha muito a perder, sua vida não era boa, não fazia questão de não cair em uma curva cheia de pedras soltas. Não temia a morte. Temia, porém, que um acidente grave não a trouxesse. Isso parecia um perigo real!
Em uma curva onde ele deveria andar em marcha reduzida, com ambos freios pressionados ele sentiu a roda da frente deslizar. O tombo era inevitável! Sua vida passou na diante dos seus olhos. Seria os instantes que antecedem a morte? Finalmente sua fome seria saciada. Meses se alimentando direito finalmente mostraram-se presentes na falta de vontade e de reflexos do suicida.
Lembrou-se de quando era criança, das brincadeiras de pegar. Lembrou-se do primeiro beijo, que vergonha, foi muito estúpido, da primeira nota vermelha na escola. Cada episódio marcante tinha uma hora inteira para passar diante de seus olhos que pararam o tempo naquele segundo.
Queria que a vista não visse aquele dia. Não o dia presente, este foi um dia cinza qualquer. Mas o dia em que marcou o fim dos dias coloridos para o começo dos cinza. Foi muito triste. Foi muito injusto, foi muito arrogante e impulsivo. Esse décimo de segundo em que essas cenas da mudança de coloração aconteceram demorou mais para passar, demoraram dias! Aquele momento do tombo não tinha mais fim. Seus recortes mentais o trucidavam, já não aguentava mais lembrar, queria logo atingir o chão, findar aquela experiência medonha. Queria cair mole no chão, cair desacordado, pra sempre.
E assim foi.
- Estás bem? - uma voz doce pergunta - acorda ai, meu, sai dessa! Eu já liguei para a ambulância, estão chegando. Dá um sinal de vida!
Passa-se um tempo e Tiago acorda no veículo branco. Dá um sorriso triste. Esperava que fosse um veículo preto. Tubos entravam por suas veias. O pescoço não podia se mover. Ele temeu pela primeira vez em muito tempo. Temeu que não morreria. O único medo que o assolava em relação a morte era sua ausência quando ela era necessária.
- Estás bem? - a voz de novo.
Os olhos percorrem o carro a procura da sua maldita salvadora.
Quando os olhos a viram, cabelo claro, pele clara, olhos claros. Sorriu. Estava no paraíso. Aquilo diante dos seus olhos que borravam e voltavam ao normal só poderia ser um anjo. O sorriso cessou. Aquela dor não poderia ser uma dor de quem ganhou a paz e a vida eterna. Aquela dor era muito real! Ao contrário do que seu agnosticismo dizia sobre o imaginário paraíso do qual ele quase fez parte.
Se não era um anjo o que aquela moça era?
- Oi - começou Tiago.
- Ai que bom que estás bem! - respondeu a moça.
E foi só o que conversaram. Tiago fora sedado e acordou somente no outro dia. Procurou pela jovem de cabelos claros e nada avistou. Podia mexer o pescoço, olhou para o lado e viu um cartão.
"Não era um sonho."
Ele acorda no outro dia. O esforço de virar para o lado, ver o cartão, lê-lo, pular da cama para questionar sobre a autora do bilhete o consumira.
Agora mais recuperado, respirando por conta própria ele se sente mais apto à caçada da sua salvadora.
- Onde está? - pergunta para um enfermeiro que passava sem esperar a resposta.
O hospital é estranho. Ele não está na sua cidade. O sotaque dos que estão no corredor entregam, ele está em Porto Alegre! Como fora parar ali? O que aconteceu de tão grave para estar ali? Tiago volta para o quarto, pega sua roupa suja de poeira e barro, procura por sua carteira, sua chave, sua moto, sua dignidade, sua honra, sua amada. Não encontra nada. Só outro bilhete.
"Na próxima lua cheia, no local da tua morte."
Os dias passam rápido. Sua alimentação não é nem perto do que fora a uma semana atrás. Sua pele parece melhor, seus ossos estão escondidos, seu ralo do banheiro não tem mais tantos fios de cabelo. Ela mudou sua vida. Ela tinha que ser real, ela tinha que existir. Ela não podia ser mentira. Ela era um anjo!
Quase um mês depois Tiago é um poço de saúde. Do acidente grave que teve uma batida forte na cabeça, ao contrário do que era esperado, não há sequelas. Chega o dia. É uma sexta.
Ele sabe o que tem que fazer. Prepara a mochila. Velas, uma toalha de mesa quadriculada em verde e branco, uma garrafa térmica com café, uma máquina fotográfica digital, um pote com sanduiches naturais. Monta no seu tordilho negro, regula os espelhos, acelera, anda rápido mas com segurança. Queria andar mais rápido mas teme. Sim, agora ele tem medo. Medo de não encontrar aquela guria que brilha no escuro, medo de ele se acidentar novamente e ela não poder salvá-lo. Outra meia-hora depois e ele chega ao local do acidente.
Uma rápida olhada ao redor. Nada. Procura um pouco melhor, se move do ponto. Nada. Vai ao ponto mais belo do lugar, ela só poderia estar lá, esperando-o, com um vinho talvez! Nada.
A lua ilumina sua decepção. Como foi trouxa em ir ali! Como pode se apaixonar por uma pessoa que não conhecia? Por que ele fez tudo isso? Por que ele se alimentou direito, dormiu direito, viveu direito? Essa parte da saúde ele até não podia reclamar. Começou a chamar a atenção por estar bem. As pessoas que o viam sempre repudiavam seu estado, mas não neste último mês. Não sabia se olhavam por pena pelo acidente ou por estar mais corado mesmo. Preferia que fosse pelo segundo motivo.
Naquele momento ele percebe que já não pensa mais no anjo. Fica sereno mesmo tendo se decepcionado. Não se importa se ela não aparecer. Até duvida de que ela realmente existia. Procura pelos bilhetes, um estava escrito que não era um sonho. Mas isso já não parecia verdade. Ainda mais por não encontrar o bilhete. Pensou melhor. Refletiu. Riu sozinho, não tinha bilhete algum, nem o primeiro nem o segundo. Era um truque da sua mente.
Claro que era. Ele estava quase morrendo e sua mente teve que lhe pregar uma peça para salvar sua saúde. Essa explicação pareceu-lhe a mais sensata.
Deitou na toalha que já começava a se molhar na aragem da noite. Pegou um café quente, serviu-se de um sanduíche. Sorriu. Afinal. Ele não precisava de ninguém para ser feliz. Era capaz de fazer isso tudo sozinho. Era capaz de ele mesmo se divertir, se pregar peças, se enganar, se apaixonar.
Quando recosta a cabeça na mochila para contemplar as nuvens e pensar na vida um pensamento macabro lhe assola.
- E se eu caísse de moto novamente?
Fica sentado na toalha de novo. Isso era loucura demais! Solta uma gargalhada que até assusta algumas aves noturnas que por ali faziam um banquete com uma vítima.
Quando recosta de novo após a risada ouve passos atrás de si.
- Pensei que não virias - começa o anjo -, fico feliz que entendeste que era aqui que deverias vir.
Ele dá um salto e abraça-a.
- Sempre soube que és real! Não seria eu capaz de me enganar assim!
Ele oferece um sanduíche e se desculpa por não ter aguardado mais dez minutos.
Conversam durante muito tempo. Ela revela que conseguiu carona com um casal de amigos que foram para outra parte do interior. Comenta com ele que também andava cabisbaixa por que o namorado a largou depois de um ano de namoro, os pais estavam se divorciando e a faculdade estava lhe exigindo tempo e dinheiro demasiado.
Conversaram por horas. Não perceberam que o sol já estava alto na manhã seguinte até que os estômagos avisaram. Sorriram. Se olharam nos olhos. De dia ela era ainda mais bonita, com o sol refletindo nos seus cabelos claros e na jóia que adornava o lábio inferior. Ele também está mais bonito do que no dia do acidente, parece mais corado, mais forte, mais altivo.
Trocam olhares, ele coloca o cabelo dela atrás da orelha esquerda, ela se aproxima, ele a beija.
Conversam por mais um tempo, trocam um bilhete e descem o morro. Ele a leva até o bairro onde ela mora em outra cidade. Ela acha cedo para que ele saiba exatamente onde é sua residência, mas deixa ele chegar perto. Outro beijo. Um abraço forte. Um abraço de quem mostra, além de tudo, gratidão por ter devolvido a vida a um morto. Um último carinho. Se despedem.
No bilhete que ele escreveu estava o número de seu telefone. No que ela escreveu estava escrito: "Foi um sonho sim!"

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