quinta-feira, 14 de abril de 2011

O vinho

Nina corria muito, mais rápido do que seus pés conseguiam, não enxergava bem na penumbra, mas seus olhos já estavam acostumados. Fazia cinco minutos que abandonara o chalé depois dos sons amedrontadores que ouviu. Nunca foi uma atleta, não era gorda, longe disso, muito esbelta e até atlética, suas pernas fortes lhe davam impulsão e sua saúde perfeita, que se mostrava na pele clara, no cabelo sedoso, no olhar penetrante, lhe garantia muitos minutos de corrida antes da exaustão.

Ela fugiu do casebre devido aos sons. Não chegou a ver nada, como se precisasse, o som sozinho já era assustador, mas o que lhe fez sair correndo como se não houvesse outra opção foi o grito de dor do seu namorado.

Nina e Ricardo só queriam passar o final de semana juntos para comemorar o primeiro aniversário de namoro. Se conheceram um ano atrás em uma festa, ela comemorando o aniversário que fora durante a semana e ele bebendo com os amigos para esquecer os problemas com a ex. A festa foi muito divertida! Antes do final já estavam juntos. Ela teve uma festa mágica. Não se comemora os 18 anos sempre, mas aquele aniversário foi o melhor de todos; não só pela companhia dos amigos, que sempre estavam presentes, especialmente nesses momentos, mas por que nessa festa encontrou o que julgava ser o amor da sua vida.

Tiveram brigas, sempre há brigas. Brigaram inclusive por ele ter ficado com ela pra esquecer-se de outra menina, mas o amor que logo surgiu entre os dois foi maior do que isso. A noite que se conheceram acabou em um motel barato. Nunca antes dormira com uma pessoa no primeiro encontro, mas ela sabia que ele seria pra sempre. Sabia que poderia fazer isso, uma única, uma última vez.

Agora ela corria ofegante. Não tinha a menor ideia do que corria e um sorriso amarelo surgia na sua face ao se questionar no porquê de correr. Essa era a melhor ideia, correr, rápido, o máximo possível, mais adiante estava a estrada e lá conseguiria, se tudo desse certo, uma carona para um posto policial.

Podia ver a luz de um carro passando mais adiante, mas os gritos não foram suficientes para penetrar no carro que passava tocando The Doors muito alto. Dentro do carro três homens e duas mulheres balançavam suas cabeças e cantavam juntos a canção de Jim Morrison. Talvez se olhassem para a esquerda no momento certo veriam o que atingiu Nina.

Ela gritou por socorro ao carro, cuidando mais para adiante do que para onde seus pés rumavam não conseguiu desviar de uma raiz mais alta na mata que lhe golpeou por baixo arremessando o corpo escultural da jovem ao chão. A batida foi tamanha que apenas com o sol claro a jovem foi capaz de se levantar. Recobrou a consciência com facilidade, como se acordasse de um pesadelo. Achou que tudo foi apenas um pesadelo, mas o sangue na sua camisa branca de gola larga delatava a verdade. Ocorreu o que ela imaginava. Correu de novo, a estrada estava ali e logo encontraria um carro que levaria-a até a polícia.

Já no posto policial ela tenta trêmula contar o que aconteceu:

- Meu namorado e eu - começou -, nós estávamos no chalé abandonado perto da curva do diabo...

- O que vocês foram fazer lá - questiona o brigadiano atendente -, não sabem que é assombrado?

- É só uma lenda, ou era pra ser. Já não sei mais, só sei que preciso de ajuda, o Ricardo está lá ainda!

O policial pegou o rádio e em menos de dois minutos já havia três viaturas da polícia esperando na frente do posto para, com a jovem, ir investigar a cena.

No caminho o policial faz um pequeno interrogatório com a vítima:

- Vocês não usaram alguma droga, correto?

- Só um vinho - ela responde ficando corada.

- Tens certeza?

Agora era possível perceber um tom de desaprovação na voz do policial, ele precisava de mais informações e Nina não estava sendo muito gentil em revelar detalhes...

- Eu falo tudo, eu falo, mas não me xinga - ela começou a falar com a voz rápida e trêmula -, nós estávamos lá comemorando o nosso primeiro aniversário de namoro. Ele disse que tinha uma coisa especial pra por no vinho, que deixaria ele ainda melhor. Não senti nada diferente, mas depois que nós - neste momento ela fica com mais vergonha e vacila na voz - transamos eu comecei a suar de medo, comecei a ouvir uns sons como se fossem de um monstro, uma assombração!

- Deve ser o espírito do velho Rude, ele se enforcou naquela cabana. A mulher lhe abandonara e ele não aguentava mais a cachaça, foi à corda!

- Não sei o que era, mas o barulho da porta sendo arrombada no fundo quase se misturou com o da porta da frente que eu empurrei com toda a força pra sair. Nunca corri tanto, seu guarda.

Balançando a cabeça o guarda dá por findada a conversa.

Quando chegam a cena do crime o policial pede para que Nina aguarde no carro. Ele sai com arma empunhada, dois outros policiais imitam seu gesto e um outro, que parecia ser um perito, só acompanha e observa detalhes.

Lá dentro eles ficam por muito tempo. Nina não aguenta mais esperar e resolve ir ajudá-los a desvendar o mistério. Ao sair do carro vê uma garrafa de vinho. Aquele néctar divino que tanto prazer lhe trouxera na noite passada parecia ainda mais sedutor agora. Bebe com sede, um gole generoso que desce arranhando sua garganta e ela começa a se lembrar das sensações. Lembra dos momentos eufóricos durante o ato sexual, lembra dos sorrisos, dos gemidos, de tudo. Outros goles chegam ao seu estômago, e mais outros. Ela quer mais lembranças, quer mais rápido, quer mais detalhes. Não fazia cinco minutos que os policiais saíram do carro e menos de dois que ela começara a se embriagar. Vários goles seguidos, rápidos, fortes, brutos. Logo a língua adormeceria, já bebera quase tanto quanto na noite passada, era uma questão de tempo para voltar a ter as sensações estranhas que aquele líquido roxo e mágico causava.

Sentada ao lado da garrafa ela lembra. O som horrível que fez com que corresse não foi um fantasma, que ridículo: fantasmas não existem, não era o velho Rude enforcado, era aquela lâmina que surgira do nada na sua mão que perfurou uma carne macia. Sua visão turva não distinguia cores, formas, não enxergava mais do que três metros e às vezes não via nada, mas seu tato sentia a perfuração acontecendo, o sangue escorrendo viscoso e quente das entranhas do amado. Como pode fazer isso? Ela amava ele mais do que a si mesma, ela queria a sua felicidade antes mesmo da própria! O que ela queria era o sorriso dele nos seus olhos. Jamais ousaria machucar Ricardo, nem em pensamento, quem dirá com uma lâmina. E que lâmina? Como ela tinha uma faca na mão? Eles nem jantaram, nem levaram nada além da garrafa, duas taças e um cobertor velho para por sobre a cama empoeirada. Nenhum utensílio de corte.

Só há uma maneira de se livrar do cárcere: precisava repetir a dose, precisava alimentar o chão de sangue novamente. A ideia não parecia repugnante para Nina, a esta altura nada era. Ela queria gozar a vida, queria aproveitar aquele estado mental diferente, queria aproveitar que sua mente voava alto de mais, seu corpo vibrava em outras frequências. Queria mais daquele vinho e nada nem ninguém lhe tiraria essa opção.

Lá dentro os policiais observam a porta de trás do chalé, a porta que daria para o milharal no fundo, a lavoura que é protegida por um espantalho tão velho quando fétido e sujo, essa porta de retaguarda estava trancada, intacta. O corpo já havia sido recolhido para análises, a arma do crime ainda era um mistério à parte . O principal suspeito estava no carro, mas eles tinham tempo para pegar a moça da pele lisa e leitosa, com o cabelo um pouco amarrotado, um pouco desarrumado, mas ainda muito liso, não precisavam ter pressa. Mas um pouco de cautela era fundamental, afinal, era uma assassina!

Um frenesi lhe atingiu. Ela precisava aproveitar a adrenalina e agir. Ou faria agora ou jamais conseguiria. Seria pega e não aproveitaria os gozos e os vinhos que a vida pode oferecer. O último gole já fora tomado mas ela queria mais, queria um gole do vinho quente, grosso, venoso. Queria um gole do sangue daquele sargento alto de pele morena e cabelo crespo. De repente ela tinha as mãos uma lâmina, não uma lâmina qualquer, mas a mesma faca do outro dia. A faca que esteve o dia inteiro esperando sair da bota e adentrar em uma musculatura nova, que esperou desde ontem por outra oportunidade de beber sangue quente. Nina não sabia que a faca estava lá, não sabia se quer que tinha matado uma pessoa, "a" pessoa, seu amado, sua vida, sua fonte de motivos para viver, como saberia que havia uma faca na sua bota? O que fazia uma faca na sua bota?

Ela sacou o objeto e o pôs em posição de ataque, com o braço erguido e a ponta mirando o chão, caminhou em direção aos policiais. Era uma missão suicida. Não tinha a menor chance de, com uma navalha de dez centímetros, sobrepujar um punhado de homens treinados com armas de fogo, mas ela não conseguia parar, seu pensamento voava, não dominava sua mente, suas pernas, seu braço. Mesmo sendo muito arriscada a execução da manobra esta era a única forma de ter acesso aos vinhos dessa vida, somente matando os policiais e limpando toda a sujeira conseguiria se ver livre. E assim ela fez. Seu corpo estava mais rápido, mais ágil, mais flexível, ou ao menos é o que ela imaginava, já que seus movimentos eram mais rápidos que sua visão.

Pela porta que saiu correndo na noite passada, a noite que comemorou o aniversário de um ano de namoro, a noite que deveria ter sido perfeita, ela entrou chutando. Em um movimento rápido pegou o policial que vigiava. A única coisa que ele fazia ali era cuidar para que Nina não entrasse. Mesmo assim foi inútil, ela entrou, e mais do que isso, entrou no seu corpo, ao menos dez centímetros entraram. A faca se via aliviada de sua sede infernal, bebera mais sangue, saciara um pouco sua vontade. Nina agora sorria, uma parte de seus inimigos fora abatida. Ela precisava desferir outros golpes em outros brigadianos, mas um pouco já tinha feito. Já poderia beber daquele vinho arterial. Já poderia saciar sua sede semelhante a sede da navalha. Agora ainda não, ela deveria primeiramente se livrar dos pobres desafortunados policiais que cruzaram no seu caminho. Quando pulou pra cima do segundo, o investigador, que só estava lá para achar detalhes ínfimos, lhe acertou um tiro. Sua carne doeu, queimou, inchou, sangrou. Nina, a assassina de amores matava mais do que os sentimentos dos outros, matava futuro, matava o corpo. Agora era sua vez de sucumbir.

Enquanto voava para trás, Nina lembrou-se da cena de ontem. Lembrou dos beijos depois do amor na cama empoeirada. Lembrou dos carinhos, afagos, lembrou também de perder o controle, não se lembra de ter pensamentos apenas ações, lembra de uma faca que não trouxeram, que misteriosamente apareceu em suas mãos. Lembrou de um tapa que ele lhe deu. Sim, ele deu um tapa. Mas por quê? Ele jamais agrediria sua amada, a pessoa que fez com que ele revivesse. Ela tenta lembrar e consegue. Desmaiou sem motivo algum, por isso um golpe, ele quis reanimá-la. Ela, sem reflexos, sem escolhas, sem arbítrio, totalmente dominada pela droga que infestara seu vinho não reagiu de outra forma, pegou uma navalha que surgira na sua mão e golpeou o amado. Seus gritos foram de dor, como um urro, como uma batida na porta, secos, graves e ela correu. Correu como se não houvesse amanhã.

Seu corpo moldado do barro, toca no chão, do seu seio esquerdo, grande e redondo, o sangue escorre. O investigador, que lhe acertou o disparo tenta em vão lhe prestar atendimento. Este é o fim de sua vida. Tão jovem, tão linda, tão fria, tão levada pela droga. Sem nenhuma prorrogação. Está findada sua chance de ser feliz com o falecido amado. Tudo acabou pra ela. Um último suspiro e uma última olhada mostram para sua mente o policial moreno de cabelo crespo bebendo um gole da prova do crime: o vinho.

domingo, 27 de março de 2011

Pedro, o fanfarrão. [1]

Pedro sempre foi um ótimo aluno na escola, sempre tirou as melhores notas, sempre disputava as melhores gurias, sempre estava na moda.
A escola era seu reino, seu cabelo sempre bagunçado, curto seguindo as melhores tendências, ruivo e sua jóia transversal na orelha faziam dele o mais popular de todos. Isso sem contar que, com 14 anos já tinha uma tatuagem: um dragão vermelho que cobria metade de suas costas.
Tudo ia muito bem para Pedro até que chegou o dia do vestibular. Pedro, inteligente que era, estava prestando vestibular para direito na UFRGS, a mais concorrida das federais do Rio Grande do Sul. Nem tentou as outras do interior por que sair da casa dos pais era meio complicado. Ali ele poderia estudar e festejar sem se preocupar com dívidas e contas. Seu pai lhe emprestava o carro de quinta à domingo e sua mãe bancava as melhores festas. O ruivo ia em todos os tipos de festa, mas preferia as que tinham mais mulheres bonitas. Se tocasse rock, melhor ainda. Era eclético, mas sabia muito bem que AC/DC é melhor do que Black Eyed Peas.
A faculdade foi regada a festa, mulheres, bebidas fortes e cocaína. Mas o temido dia chegou. Sua formatura. Não que evitasse o dia da formatura, longe disso. Ele demorou 8 anos pra se formar por pura vontade, não por que trocava provas importantes por mais uma hora de delírios proporcionados pelas suas drogas favoritas.
Depois de formado teria que morar sozinho, fazer a prova da OAB. Seus pais não queriam mais aquele estorvo por perto, não querem aquele custo, querem poder viajar sem se preocupar, venderiam o apartamento e torrariam o dinheiro em praias do nordeste. Ele, crescidinho já, teria que se mostrar homem.

continua...

quinta-feira, 24 de março de 2011

O anjo de Tiago

O relógio marcava dez para as cinco da manhã, ele não consegue mais dormir, a cama parece que quer se ver livre dele.
- Por quê? - ele pergunta para o objeto - por que eu não consigo dormir?
Suas noites já não são as mesmas de outrora, agora ele se deita depois da virada do relógio e acorda antes da alvorada. Quando se recosta em seu travesseiro, os pensamentos revoam, de lá pra cá e de cá pra lá. No meio da madrugada é sempre um susto. Acorda temendo. Não tem certeza do que teme, mas o medo o tira do reconforto do sono.
Finalmente a hora de levantar. Já não aguenta mais rolar na cama, ela alfineta sua retaguarda. Mesa posta desde a noite passada, completa com as coisas da geladeira e o desjejum é digno de um rei.
Olha pra tudo aquilo e serve-se um café preto, frio, sem açúcar, sem amor. Um só gole já o basta. O resto conhece o aço da pia.
Essa é apenas mais uma manhã cinzenta de sua vida, apesar de ser um lindo dia de céu azul de vento gélido que se transformará em uma manhã quente digna de um refrescante banho de rio. É sábado, ele pode ir a uma encosta se banhar. Mas ele gostaria disso?
Será que algum amigo gostaria de o acompanhar? Procura pelo telefone móvel, está no quarto, ao lado da foto que fora tirada quando tinha 16 anos. Do lado de um borrão de café que enfeita o bidê.
Olha para o celular esperando que ele toque. Ele nunca toca. Nem mesmo as operadoras lembram-se dele. Ele está sozinho. O telefone olha pra ele com pena. Percorre a agenda, até a metade da sua extensa lista, que fora aumentando no decorrer dos anos, Tiago não encontra uma única opção para uma conversa. Também não gostaria de incomodar as pessoas que não sofriam como ele da maldita bênção de não ter sono. Resolve esperar o tempo passar. Como? Já ficou muito tempo esperando o sol raiar, não seria capaz de esperar o tempo passar mais ainda!
Resolve seus problemas: uma ideia miraculosa!
Agora munido de um Dostoiévski, uma cuia com erva mate e uma garrafa térmica ele monta na sua motocicleta e ruma ao interior do município.
Sua mochila que o acompanha desde os tempos escolares está quase vazia, mas uma camisa de flanela ainda completa seu espaço interno. Um broche do Nirvana revela seu gosto musical ao refletir um raio de sol, que agora é um pouco mais intenso.
Mais de uma hora depois ele chega a um lugar onde o trânsito já não é um incômodo. Ruas completamente desertas, nem mesmo uma poeira se faz presente. A chuva de ontem ajudou a fazer com que a estrada de chão batido da localidade parecesse ainda mais deserta. No caminho cruzara por aldeões, alguns o cumprimentaram, outros mostraram indiferença.
Agora sim está pronto para começar o último capítulo do livro. Não terminara antes o maravilhoso romance pois precisaria de muito tempo, não que fosse grande o capítulo, mas Tiago gostaria de muito tempo para mastigar e ruminar os sentimentos que seu autor preferido despertava.
Serviu-se de um chimarrão. Leu. Outro chimarrão...
Em algumas horas ele estava deitado sobre sua flanela. O sol já esquentava mais do que ele merecia, o calor o afastava da consciência. O jovem queria dormir de novo, dormir pra sempre. Aquele sentimento de raiva e de paz por Raskholnikóv ter se entregue o deixava mais corrompido ainda. Tinha fé que o estudante russo conseguiria se manter livre de sua perversa mente, mas sabia também que aquele gesto de se entregar fora o mais sensato, o que mais breve lhe traria paz.
O horário do almoço há muito já passou, a erva a muito esfriou e a água já não é presente. Sua pele não chegou a se queimar, mas um cansaço já o perseguia. A noite já se aproximava e ele passara o dia inteiro assim. Deitado olhando as nuvens tomar formas e lembrá-lo de cenas do livro.
A noite chega e ele desperta de sua mente, de seu limbo. Não dormira, não descansara, mas despertou.
Em um salto pôs-se de pé. Precisava ir logo! O mais rápido possível! Aquele não era um lugar amigável pra ele em um sábado de noite. Logo chegariam casais de namorados utilizarem o alto da colina e a vista maravilhosa da cidade para namorara. Ele odiava pensar nisso. Namorados. Por que o perseguiam?
Montou na motocicleta e foi. Morro abaixo muito mais rápido do que deveria. A segurança não era uma preocupação para o motoqueiro. Não tinha muito a perder, sua vida não era boa, não fazia questão de não cair em uma curva cheia de pedras soltas. Não temia a morte. Temia, porém, que um acidente grave não a trouxesse. Isso parecia um perigo real!
Em uma curva onde ele deveria andar em marcha reduzida, com ambos freios pressionados ele sentiu a roda da frente deslizar. O tombo era inevitável! Sua vida passou na diante dos seus olhos. Seria os instantes que antecedem a morte? Finalmente sua fome seria saciada. Meses se alimentando direito finalmente mostraram-se presentes na falta de vontade e de reflexos do suicida.
Lembrou-se de quando era criança, das brincadeiras de pegar. Lembrou-se do primeiro beijo, que vergonha, foi muito estúpido, da primeira nota vermelha na escola. Cada episódio marcante tinha uma hora inteira para passar diante de seus olhos que pararam o tempo naquele segundo.
Queria que a vista não visse aquele dia. Não o dia presente, este foi um dia cinza qualquer. Mas o dia em que marcou o fim dos dias coloridos para o começo dos cinza. Foi muito triste. Foi muito injusto, foi muito arrogante e impulsivo. Esse décimo de segundo em que essas cenas da mudança de coloração aconteceram demorou mais para passar, demoraram dias! Aquele momento do tombo não tinha mais fim. Seus recortes mentais o trucidavam, já não aguentava mais lembrar, queria logo atingir o chão, findar aquela experiência medonha. Queria cair mole no chão, cair desacordado, pra sempre.
E assim foi.
- Estás bem? - uma voz doce pergunta - acorda ai, meu, sai dessa! Eu já liguei para a ambulância, estão chegando. Dá um sinal de vida!
Passa-se um tempo e Tiago acorda no veículo branco. Dá um sorriso triste. Esperava que fosse um veículo preto. Tubos entravam por suas veias. O pescoço não podia se mover. Ele temeu pela primeira vez em muito tempo. Temeu que não morreria. O único medo que o assolava em relação a morte era sua ausência quando ela era necessária.
- Estás bem? - a voz de novo.
Os olhos percorrem o carro a procura da sua maldita salvadora.
Quando os olhos a viram, cabelo claro, pele clara, olhos claros. Sorriu. Estava no paraíso. Aquilo diante dos seus olhos que borravam e voltavam ao normal só poderia ser um anjo. O sorriso cessou. Aquela dor não poderia ser uma dor de quem ganhou a paz e a vida eterna. Aquela dor era muito real! Ao contrário do que seu agnosticismo dizia sobre o imaginário paraíso do qual ele quase fez parte.
Se não era um anjo o que aquela moça era?
- Oi - começou Tiago.
- Ai que bom que estás bem! - respondeu a moça.
E foi só o que conversaram. Tiago fora sedado e acordou somente no outro dia. Procurou pela jovem de cabelos claros e nada avistou. Podia mexer o pescoço, olhou para o lado e viu um cartão.
"Não era um sonho."
Ele acorda no outro dia. O esforço de virar para o lado, ver o cartão, lê-lo, pular da cama para questionar sobre a autora do bilhete o consumira.
Agora mais recuperado, respirando por conta própria ele se sente mais apto à caçada da sua salvadora.
- Onde está? - pergunta para um enfermeiro que passava sem esperar a resposta.
O hospital é estranho. Ele não está na sua cidade. O sotaque dos que estão no corredor entregam, ele está em Porto Alegre! Como fora parar ali? O que aconteceu de tão grave para estar ali? Tiago volta para o quarto, pega sua roupa suja de poeira e barro, procura por sua carteira, sua chave, sua moto, sua dignidade, sua honra, sua amada. Não encontra nada. Só outro bilhete.
"Na próxima lua cheia, no local da tua morte."
Os dias passam rápido. Sua alimentação não é nem perto do que fora a uma semana atrás. Sua pele parece melhor, seus ossos estão escondidos, seu ralo do banheiro não tem mais tantos fios de cabelo. Ela mudou sua vida. Ela tinha que ser real, ela tinha que existir. Ela não podia ser mentira. Ela era um anjo!
Quase um mês depois Tiago é um poço de saúde. Do acidente grave que teve uma batida forte na cabeça, ao contrário do que era esperado, não há sequelas. Chega o dia. É uma sexta.
Ele sabe o que tem que fazer. Prepara a mochila. Velas, uma toalha de mesa quadriculada em verde e branco, uma garrafa térmica com café, uma máquina fotográfica digital, um pote com sanduiches naturais. Monta no seu tordilho negro, regula os espelhos, acelera, anda rápido mas com segurança. Queria andar mais rápido mas teme. Sim, agora ele tem medo. Medo de não encontrar aquela guria que brilha no escuro, medo de ele se acidentar novamente e ela não poder salvá-lo. Outra meia-hora depois e ele chega ao local do acidente.
Uma rápida olhada ao redor. Nada. Procura um pouco melhor, se move do ponto. Nada. Vai ao ponto mais belo do lugar, ela só poderia estar lá, esperando-o, com um vinho talvez! Nada.
A lua ilumina sua decepção. Como foi trouxa em ir ali! Como pode se apaixonar por uma pessoa que não conhecia? Por que ele fez tudo isso? Por que ele se alimentou direito, dormiu direito, viveu direito? Essa parte da saúde ele até não podia reclamar. Começou a chamar a atenção por estar bem. As pessoas que o viam sempre repudiavam seu estado, mas não neste último mês. Não sabia se olhavam por pena pelo acidente ou por estar mais corado mesmo. Preferia que fosse pelo segundo motivo.
Naquele momento ele percebe que já não pensa mais no anjo. Fica sereno mesmo tendo se decepcionado. Não se importa se ela não aparecer. Até duvida de que ela realmente existia. Procura pelos bilhetes, um estava escrito que não era um sonho. Mas isso já não parecia verdade. Ainda mais por não encontrar o bilhete. Pensou melhor. Refletiu. Riu sozinho, não tinha bilhete algum, nem o primeiro nem o segundo. Era um truque da sua mente.
Claro que era. Ele estava quase morrendo e sua mente teve que lhe pregar uma peça para salvar sua saúde. Essa explicação pareceu-lhe a mais sensata.
Deitou na toalha que já começava a se molhar na aragem da noite. Pegou um café quente, serviu-se de um sanduíche. Sorriu. Afinal. Ele não precisava de ninguém para ser feliz. Era capaz de fazer isso tudo sozinho. Era capaz de ele mesmo se divertir, se pregar peças, se enganar, se apaixonar.
Quando recosta a cabeça na mochila para contemplar as nuvens e pensar na vida um pensamento macabro lhe assola.
- E se eu caísse de moto novamente?
Fica sentado na toalha de novo. Isso era loucura demais! Solta uma gargalhada que até assusta algumas aves noturnas que por ali faziam um banquete com uma vítima.
Quando recosta de novo após a risada ouve passos atrás de si.
- Pensei que não virias - começa o anjo -, fico feliz que entendeste que era aqui que deverias vir.
Ele dá um salto e abraça-a.
- Sempre soube que és real! Não seria eu capaz de me enganar assim!
Ele oferece um sanduíche e se desculpa por não ter aguardado mais dez minutos.
Conversam durante muito tempo. Ela revela que conseguiu carona com um casal de amigos que foram para outra parte do interior. Comenta com ele que também andava cabisbaixa por que o namorado a largou depois de um ano de namoro, os pais estavam se divorciando e a faculdade estava lhe exigindo tempo e dinheiro demasiado.
Conversaram por horas. Não perceberam que o sol já estava alto na manhã seguinte até que os estômagos avisaram. Sorriram. Se olharam nos olhos. De dia ela era ainda mais bonita, com o sol refletindo nos seus cabelos claros e na jóia que adornava o lábio inferior. Ele também está mais bonito do que no dia do acidente, parece mais corado, mais forte, mais altivo.
Trocam olhares, ele coloca o cabelo dela atrás da orelha esquerda, ela se aproxima, ele a beija.
Conversam por mais um tempo, trocam um bilhete e descem o morro. Ele a leva até o bairro onde ela mora em outra cidade. Ela acha cedo para que ele saiba exatamente onde é sua residência, mas deixa ele chegar perto. Outro beijo. Um abraço forte. Um abraço de quem mostra, além de tudo, gratidão por ter devolvido a vida a um morto. Um último carinho. Se despedem.
No bilhete que ele escreveu estava o número de seu telefone. No que ela escreveu estava escrito: "Foi um sonho sim!"