quinta-feira, 14 de abril de 2011

O vinho

Nina corria muito, mais rápido do que seus pés conseguiam, não enxergava bem na penumbra, mas seus olhos já estavam acostumados. Fazia cinco minutos que abandonara o chalé depois dos sons amedrontadores que ouviu. Nunca foi uma atleta, não era gorda, longe disso, muito esbelta e até atlética, suas pernas fortes lhe davam impulsão e sua saúde perfeita, que se mostrava na pele clara, no cabelo sedoso, no olhar penetrante, lhe garantia muitos minutos de corrida antes da exaustão.

Ela fugiu do casebre devido aos sons. Não chegou a ver nada, como se precisasse, o som sozinho já era assustador, mas o que lhe fez sair correndo como se não houvesse outra opção foi o grito de dor do seu namorado.

Nina e Ricardo só queriam passar o final de semana juntos para comemorar o primeiro aniversário de namoro. Se conheceram um ano atrás em uma festa, ela comemorando o aniversário que fora durante a semana e ele bebendo com os amigos para esquecer os problemas com a ex. A festa foi muito divertida! Antes do final já estavam juntos. Ela teve uma festa mágica. Não se comemora os 18 anos sempre, mas aquele aniversário foi o melhor de todos; não só pela companhia dos amigos, que sempre estavam presentes, especialmente nesses momentos, mas por que nessa festa encontrou o que julgava ser o amor da sua vida.

Tiveram brigas, sempre há brigas. Brigaram inclusive por ele ter ficado com ela pra esquecer-se de outra menina, mas o amor que logo surgiu entre os dois foi maior do que isso. A noite que se conheceram acabou em um motel barato. Nunca antes dormira com uma pessoa no primeiro encontro, mas ela sabia que ele seria pra sempre. Sabia que poderia fazer isso, uma única, uma última vez.

Agora ela corria ofegante. Não tinha a menor ideia do que corria e um sorriso amarelo surgia na sua face ao se questionar no porquê de correr. Essa era a melhor ideia, correr, rápido, o máximo possível, mais adiante estava a estrada e lá conseguiria, se tudo desse certo, uma carona para um posto policial.

Podia ver a luz de um carro passando mais adiante, mas os gritos não foram suficientes para penetrar no carro que passava tocando The Doors muito alto. Dentro do carro três homens e duas mulheres balançavam suas cabeças e cantavam juntos a canção de Jim Morrison. Talvez se olhassem para a esquerda no momento certo veriam o que atingiu Nina.

Ela gritou por socorro ao carro, cuidando mais para adiante do que para onde seus pés rumavam não conseguiu desviar de uma raiz mais alta na mata que lhe golpeou por baixo arremessando o corpo escultural da jovem ao chão. A batida foi tamanha que apenas com o sol claro a jovem foi capaz de se levantar. Recobrou a consciência com facilidade, como se acordasse de um pesadelo. Achou que tudo foi apenas um pesadelo, mas o sangue na sua camisa branca de gola larga delatava a verdade. Ocorreu o que ela imaginava. Correu de novo, a estrada estava ali e logo encontraria um carro que levaria-a até a polícia.

Já no posto policial ela tenta trêmula contar o que aconteceu:

- Meu namorado e eu - começou -, nós estávamos no chalé abandonado perto da curva do diabo...

- O que vocês foram fazer lá - questiona o brigadiano atendente -, não sabem que é assombrado?

- É só uma lenda, ou era pra ser. Já não sei mais, só sei que preciso de ajuda, o Ricardo está lá ainda!

O policial pegou o rádio e em menos de dois minutos já havia três viaturas da polícia esperando na frente do posto para, com a jovem, ir investigar a cena.

No caminho o policial faz um pequeno interrogatório com a vítima:

- Vocês não usaram alguma droga, correto?

- Só um vinho - ela responde ficando corada.

- Tens certeza?

Agora era possível perceber um tom de desaprovação na voz do policial, ele precisava de mais informações e Nina não estava sendo muito gentil em revelar detalhes...

- Eu falo tudo, eu falo, mas não me xinga - ela começou a falar com a voz rápida e trêmula -, nós estávamos lá comemorando o nosso primeiro aniversário de namoro. Ele disse que tinha uma coisa especial pra por no vinho, que deixaria ele ainda melhor. Não senti nada diferente, mas depois que nós - neste momento ela fica com mais vergonha e vacila na voz - transamos eu comecei a suar de medo, comecei a ouvir uns sons como se fossem de um monstro, uma assombração!

- Deve ser o espírito do velho Rude, ele se enforcou naquela cabana. A mulher lhe abandonara e ele não aguentava mais a cachaça, foi à corda!

- Não sei o que era, mas o barulho da porta sendo arrombada no fundo quase se misturou com o da porta da frente que eu empurrei com toda a força pra sair. Nunca corri tanto, seu guarda.

Balançando a cabeça o guarda dá por findada a conversa.

Quando chegam a cena do crime o policial pede para que Nina aguarde no carro. Ele sai com arma empunhada, dois outros policiais imitam seu gesto e um outro, que parecia ser um perito, só acompanha e observa detalhes.

Lá dentro eles ficam por muito tempo. Nina não aguenta mais esperar e resolve ir ajudá-los a desvendar o mistério. Ao sair do carro vê uma garrafa de vinho. Aquele néctar divino que tanto prazer lhe trouxera na noite passada parecia ainda mais sedutor agora. Bebe com sede, um gole generoso que desce arranhando sua garganta e ela começa a se lembrar das sensações. Lembra dos momentos eufóricos durante o ato sexual, lembra dos sorrisos, dos gemidos, de tudo. Outros goles chegam ao seu estômago, e mais outros. Ela quer mais lembranças, quer mais rápido, quer mais detalhes. Não fazia cinco minutos que os policiais saíram do carro e menos de dois que ela começara a se embriagar. Vários goles seguidos, rápidos, fortes, brutos. Logo a língua adormeceria, já bebera quase tanto quanto na noite passada, era uma questão de tempo para voltar a ter as sensações estranhas que aquele líquido roxo e mágico causava.

Sentada ao lado da garrafa ela lembra. O som horrível que fez com que corresse não foi um fantasma, que ridículo: fantasmas não existem, não era o velho Rude enforcado, era aquela lâmina que surgira do nada na sua mão que perfurou uma carne macia. Sua visão turva não distinguia cores, formas, não enxergava mais do que três metros e às vezes não via nada, mas seu tato sentia a perfuração acontecendo, o sangue escorrendo viscoso e quente das entranhas do amado. Como pode fazer isso? Ela amava ele mais do que a si mesma, ela queria a sua felicidade antes mesmo da própria! O que ela queria era o sorriso dele nos seus olhos. Jamais ousaria machucar Ricardo, nem em pensamento, quem dirá com uma lâmina. E que lâmina? Como ela tinha uma faca na mão? Eles nem jantaram, nem levaram nada além da garrafa, duas taças e um cobertor velho para por sobre a cama empoeirada. Nenhum utensílio de corte.

Só há uma maneira de se livrar do cárcere: precisava repetir a dose, precisava alimentar o chão de sangue novamente. A ideia não parecia repugnante para Nina, a esta altura nada era. Ela queria gozar a vida, queria aproveitar aquele estado mental diferente, queria aproveitar que sua mente voava alto de mais, seu corpo vibrava em outras frequências. Queria mais daquele vinho e nada nem ninguém lhe tiraria essa opção.

Lá dentro os policiais observam a porta de trás do chalé, a porta que daria para o milharal no fundo, a lavoura que é protegida por um espantalho tão velho quando fétido e sujo, essa porta de retaguarda estava trancada, intacta. O corpo já havia sido recolhido para análises, a arma do crime ainda era um mistério à parte . O principal suspeito estava no carro, mas eles tinham tempo para pegar a moça da pele lisa e leitosa, com o cabelo um pouco amarrotado, um pouco desarrumado, mas ainda muito liso, não precisavam ter pressa. Mas um pouco de cautela era fundamental, afinal, era uma assassina!

Um frenesi lhe atingiu. Ela precisava aproveitar a adrenalina e agir. Ou faria agora ou jamais conseguiria. Seria pega e não aproveitaria os gozos e os vinhos que a vida pode oferecer. O último gole já fora tomado mas ela queria mais, queria um gole do vinho quente, grosso, venoso. Queria um gole do sangue daquele sargento alto de pele morena e cabelo crespo. De repente ela tinha as mãos uma lâmina, não uma lâmina qualquer, mas a mesma faca do outro dia. A faca que esteve o dia inteiro esperando sair da bota e adentrar em uma musculatura nova, que esperou desde ontem por outra oportunidade de beber sangue quente. Nina não sabia que a faca estava lá, não sabia se quer que tinha matado uma pessoa, "a" pessoa, seu amado, sua vida, sua fonte de motivos para viver, como saberia que havia uma faca na sua bota? O que fazia uma faca na sua bota?

Ela sacou o objeto e o pôs em posição de ataque, com o braço erguido e a ponta mirando o chão, caminhou em direção aos policiais. Era uma missão suicida. Não tinha a menor chance de, com uma navalha de dez centímetros, sobrepujar um punhado de homens treinados com armas de fogo, mas ela não conseguia parar, seu pensamento voava, não dominava sua mente, suas pernas, seu braço. Mesmo sendo muito arriscada a execução da manobra esta era a única forma de ter acesso aos vinhos dessa vida, somente matando os policiais e limpando toda a sujeira conseguiria se ver livre. E assim ela fez. Seu corpo estava mais rápido, mais ágil, mais flexível, ou ao menos é o que ela imaginava, já que seus movimentos eram mais rápidos que sua visão.

Pela porta que saiu correndo na noite passada, a noite que comemorou o aniversário de um ano de namoro, a noite que deveria ter sido perfeita, ela entrou chutando. Em um movimento rápido pegou o policial que vigiava. A única coisa que ele fazia ali era cuidar para que Nina não entrasse. Mesmo assim foi inútil, ela entrou, e mais do que isso, entrou no seu corpo, ao menos dez centímetros entraram. A faca se via aliviada de sua sede infernal, bebera mais sangue, saciara um pouco sua vontade. Nina agora sorria, uma parte de seus inimigos fora abatida. Ela precisava desferir outros golpes em outros brigadianos, mas um pouco já tinha feito. Já poderia beber daquele vinho arterial. Já poderia saciar sua sede semelhante a sede da navalha. Agora ainda não, ela deveria primeiramente se livrar dos pobres desafortunados policiais que cruzaram no seu caminho. Quando pulou pra cima do segundo, o investigador, que só estava lá para achar detalhes ínfimos, lhe acertou um tiro. Sua carne doeu, queimou, inchou, sangrou. Nina, a assassina de amores matava mais do que os sentimentos dos outros, matava futuro, matava o corpo. Agora era sua vez de sucumbir.

Enquanto voava para trás, Nina lembrou-se da cena de ontem. Lembrou dos beijos depois do amor na cama empoeirada. Lembrou dos carinhos, afagos, lembrou também de perder o controle, não se lembra de ter pensamentos apenas ações, lembra de uma faca que não trouxeram, que misteriosamente apareceu em suas mãos. Lembrou de um tapa que ele lhe deu. Sim, ele deu um tapa. Mas por quê? Ele jamais agrediria sua amada, a pessoa que fez com que ele revivesse. Ela tenta lembrar e consegue. Desmaiou sem motivo algum, por isso um golpe, ele quis reanimá-la. Ela, sem reflexos, sem escolhas, sem arbítrio, totalmente dominada pela droga que infestara seu vinho não reagiu de outra forma, pegou uma navalha que surgira na sua mão e golpeou o amado. Seus gritos foram de dor, como um urro, como uma batida na porta, secos, graves e ela correu. Correu como se não houvesse amanhã.

Seu corpo moldado do barro, toca no chão, do seu seio esquerdo, grande e redondo, o sangue escorre. O investigador, que lhe acertou o disparo tenta em vão lhe prestar atendimento. Este é o fim de sua vida. Tão jovem, tão linda, tão fria, tão levada pela droga. Sem nenhuma prorrogação. Está findada sua chance de ser feliz com o falecido amado. Tudo acabou pra ela. Um último suspiro e uma última olhada mostram para sua mente o policial moreno de cabelo crespo bebendo um gole da prova do crime: o vinho.

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